Quem quer governar o Brasil precisa encarar o debate
Debates não são favores prestados por candidatos nem simples atrações televisivas. São oportunidades para o eleitor comparar propostas, avaliar comportamentos e exigir respostas de quem pretende governar o país.
A campanha eleitoral não deveria ser apenas uma sequência de discursos preparados, vídeos cuidadosamente editados e publicações destinadas aos próprios apoiadores. Quem pretende governar o Brasil precisa estar disposto a enfrentar perguntas, críticas e adversários diante da população.
Por isso, considero positiva a confirmação de Flávio Bolsonaro no debate da TV Globo, previsto para 1º de outubro, assim como o convite feito para que o presidente Lula também participe. Os dois ocupam posições centrais na disputa e o eleitor tem o direito de vê-los frente a frente.
Esse reconhecimento, porém, precisa vir acompanhado de coerência. Lula e Flávio já deixaram de participar de outros debates durante esta campanha. A ausência dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas prejudicou os eleitores, reduziu o interesse pelos encontros e diminuiu o espaço para a comparação direta de propostas.
Não basta aparecer apenas quando a campanha considera o cenário favorável. O compromisso com o debate democrático não pode depender exclusivamente de cálculos eleitorais, conveniência da agenda ou avaliação sobre quem poderá ganhar ou perder naquele momento.
Um candidato pode discursar sozinho, escolher as perguntas que deseja responder e divulgar somente os trechos que considera positivos. No debate, a situação é diferente. Ele precisa ouvir o adversário, responder a questionamentos inesperados, explicar contradições e demonstrar equilíbrio sob pressão.
É nesse ambiente que o eleitor consegue observar características que dificilmente aparecem na propaganda oficial. Conhecimento, preparo, firmeza, respeito e capacidade de raciocinar diante de uma crítica também fazem parte das qualificações necessárias a quem deseja ocupar a Presidência da República.
O confronto de ideias, contudo, não deve ser confundido com uma disputa de insultos. Acusações pessoais, interrupções permanentes e frases produzidas apenas para circular nas redes sociais podem gerar repercussão, mas pouco ajudam o cidadão a decidir seu voto.
O Brasil precisa conhecer as propostas dos candidatos para a economia, a segurança pública, a saúde, a educação, o combate à corrupção e as relações internacionais. Também precisa saber como cada um pretende governar, formar sua equipe e enfrentar os problemas concretos vividos pelas famílias.
Os candidatos menos favorecidos nas pesquisas também merecem respeito. Eles representam partidos, ideias e parcelas do eleitorado. A democracia não pode tratar a eleição como se estivesse antecipadamente limitada a dois nomes escolhidos pelos levantamentos de intenção de voto.
Ao mesmo tempo, é evidente que a presença dos principais concorrentes aumenta a relevância do encontro. Quando aqueles que lideram a disputa se ausentam, deixam de responder justamente às perguntas que milhões de brasileiros gostariam de fazer.
Na minha opinião, o candidato que pede a confiança do eleitor precisa demonstrar coragem para participar dos debates. Quem se considera preparado para governar mais de 200 milhões de brasileiros também deve estar preparado para dividir um estúdio com seus adversários e defender suas ideias diante do país.
Flávio Bolsonaro fez bem ao confirmar sua participação. Lula também deveria comparecer. E essa mesma cobrança precisa valer para todos, independentemente de partido, posição ideológica ou colocação nas pesquisas.
O debate não pertence à emissora, aos marqueteiros nem aos candidatos. Ele pertence ao eleitor. Fugir desse encontro pode até fazer parte de uma estratégia de campanha, mas dificilmente representa o respeito que a sociedade merece de quem pretende governá-la.
