Voto útil ganha força na reta final e pressiona candidatos menores
Campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro procuram antecipar a polarização e atrair eleitores de outros candidatos. Estratégia pode influenciar o primeiro turno e reduzir o espaço das alternativas.
A aproximação do primeiro turno das eleições presidenciais intensificou o debate sobre o chamado voto útil. A estratégia consiste em escolher um candidato considerado mais competitivo, ainda que ele não seja a primeira preferência do eleitor, para tentar impedir a vitória de outro adversário ou influenciar quais nomes seguirão para o segundo turno.
As campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro passaram a disputar com maior intensidade os eleitores de candidatos que aparecem com percentuais menores nas pesquisas. Os dois principais concorrentes procuram concentrar votos e ampliar suas possibilidades de vitória já no primeiro turno ou de chegar à etapa seguinte em posição mais favorável.
O voto útil não é uma categoria prevista na legislação eleitoral nem altera a forma de apuração. Trata-se de uma decisão estratégica tomada pelo próprio eleitor. Cada voto válido possui o mesmo valor e é contabilizado normalmente, independentemente da posição ocupada pelo candidato nas pesquisas.
Para vencer a eleição presidencial no primeiro turno, um candidato precisa receber mais da metade dos votos válidos, excluídos os votos em branco e nulos. Se ninguém alcançar essa maioria absoluta, os dois mais votados participam do segundo turno. Nessa nova votação, os votos dados no primeiro turno não são transferidos nem reaproveitados.
Os defensores do voto útil argumentam que ele permite ao eleitor interferir de maneira mais direta no resultado, especialmente quando existe forte rejeição a um dos favoritos. Nesse caso, a escolha deixa de ser apenas pelo candidato preferido e passa a considerar também qual concorrente possui melhores condições de derrotar aquele que o eleitor não deseja ver eleito.
Por outro lado, críticos dessa estratégia afirmam que o primeiro turno deveria ser o momento de votar por convicção. Para eles, abandonar antecipadamente uma candidatura com menor apoio pode reduzir o espaço para propostas diferentes, enfraquecer partidos menores e reforçar uma polarização que já domina o debate político nacional.
As pesquisas eleitorais desempenham papel importante nesse processo porque ajudam a formar a percepção sobre quais candidaturas são competitivas. Entretanto, os levantamentos representam o cenário do período em que foram realizados e possuem margens de erro, metodologias e amostras diferentes. Por isso, não devem ser tratados como resultados antecipados da eleição.
A pressão pelo voto útil também coloca os candidatos menores diante de um desafio. Além de apresentarem suas propostas, eles precisam convencer o eleitor de que permanecer na disputa tem importância política, mesmo quando suas possibilidades imediatas de vitória são limitadas. A votação recebida pode fortalecer partidos, ampliar a presença de determinadas ideias e influenciar alianças futuras.
Na prática, a decisão envolve duas maneiras legítimas de participar da eleição: votar no candidato que melhor representa as próprias convicções ou escolher estrategicamente entre aqueles considerados mais competitivos. Não existe voto desperdiçado quando ele é dado de forma consciente a uma candidatura regularmente registrada.
O avanço do debate sobre o voto útil mostra que a reta final da campanha será marcada não apenas pela conquista dos indecisos, mas também pela tentativa de transferência dos votos já direcionados a outros nomes. Caberá ao eleitor avaliar pesquisas, propostas, histórico e consequências de sua escolha antes de decidir.
As informações sobre as regras de apuração foram confirmadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. O movimento das campanhas pelo voto útil foi noticiado pela imprensa nacional, com base nas estratégias adotadas pelos principais candidatos na reta final do primeiro turno.
