Justiça

PGR aponta atuação de Eduardo Bolsonaro na gestão de recursos destinados ao filme “Dark Horse”

Manifestação incluída no inquérito do caso Master afirma que o ex-deputado teria orientado a administração de valores enviados aos Estados Unidos. A avaliação da Procuradoria integra uma investigação em andamento e não representa condenação.

Por Saulo Bezerra · 11 de setembro de 2026 · 12h22
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Claquete e rolos de filme aparecem sobre mesa com documentos financeiros e mapa indicando uma conexão entre Brasil e Estados Unidos.

A Procuradoria-Geral da República afirmou que Eduardo Bolsonaro teria participado da orientação sobre a gestão de recursos destinados ao projeto do filme “Dark Horse”, produção cinematográfica inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A avaliação consta de uma manifestação apresentada no inquérito relacionado ao caso do Banco Master. Parte dos documentos da investigação teve o sigilo retirado após solicitação do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.

Segundo as informações divulgadas, os recursos teriam sido enviados para uma estrutura financeira administrada nos Estados Unidos. A PGR analisa a origem, a movimentação e a destinação desses valores, além da possível participação de pessoas ligadas ao projeto.

A Procuradoria também teria classificado como “aporte ilícito” determinados repasses atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para o financiamento do filme.

Essa classificação representa o entendimento apresentado pela PGR dentro da investigação. Não se trata, até o momento, de uma conclusão judicial definitiva nem de uma condenação dos envolvidos.

Recursos enviados aos Estados Unidos

O filme “Dark Horse” foi anunciado como uma produção internacional sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, com destaque para a campanha presidencial de 2018 e o atentado sofrido pelo então candidato em Juiz de Fora.

As investigações procuram esclarecer como ocorreu o financiamento da produção e qual foi o caminho percorrido pelos recursos enviados ao exterior.

Parte dos valores teria passado por um fundo administrado nos Estados Unidos. A apuração busca verificar quem tomou as decisões sobre a movimentação do dinheiro, quais empresas e pessoas participaram das operações e se os recursos foram efetivamente utilizados na produção cinematográfica.

De acordo com a manifestação atribuída à PGR, Eduardo Bolsonaro teria exercido influência sobre a gestão desses valores. O conteúdo divulgado, entretanto, não significa que a suspeita já tenha sido comprovada.

A existência de orientação ou participação administrativa, isoladamente, também não determina a ocorrência de crime. Para que exista uma responsabilização, será necessário demonstrar a origem ilícita dos recursos, o conhecimento dos envolvidos e a finalidade das operações realizadas.

Ligação com o caso Master

O interesse das autoridades pelo financiamento do filme aumentou devido à participação de Daniel Vorcaro, empresário que se tornou personagem central das investigações envolvendo o Banco Master.

A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República analisam diferentes operações financeiras atribuídas a pessoas e empresas ligadas ao ex-banqueiro. Entre os pontos investigados estão transferências realizadas por meio de empresas, fundos de investimento e estruturas financeiras nacionais e internacionais.

No caso de “Dark Horse”, os investigadores procuram saber se os repasses seguiram uma operação comercial regular ou se foram utilizados para movimentar recursos de origem suspeita.

A utilização de um fundo sediado fora do Brasil não constitui, por si só, uma irregularidade. Operações internacionais podem ocorrer legalmente, desde que sejam declaradas, documentadas e realizadas em conformidade com as regras financeiras e tributárias.

A investigação deverá avaliar justamente se essas exigências foram respeitadas e se os contratos e registros correspondem aos valores efetivamente movimentados.

Manifestação não representa condenação

A manifestação da PGR constitui uma posição apresentada durante a investigação. As informações ainda poderão ser confrontadas com documentos bancários, contratos, depoimentos e esclarecimentos das pessoas mencionadas.

Eduardo Bolsonaro e os demais citados terão direito de apresentar suas versões, contestar as interpretações dos investigadores e fornecer documentos que considerem necessários para explicar as operações.

Somente após a conclusão das apurações a Procuradoria poderá decidir se existem elementos suficientes para apresentar uma denúncia. Caso isso aconteça, ainda caberá ao Supremo analisar se recebe ou não a acusação.

Se não forem encontrados indícios suficientes, a própria PGR poderá pedir o arquivamento do procedimento ou de parte das suspeitas.

A presunção de inocência permanece válida durante todas essas etapas. Por essa razão, as afirmações constantes da investigação devem ser apresentadas como alegações dos órgãos responsáveis pela apuração, e não como fatos definitivamente comprovados.

Efeito político da investigação

O caso também possui repercussão política porque envolve integrantes da família Bolsonaro e surge durante a campanha eleitoral de 2026.

As investigações sobre o Banco Master alcançam personagens de diferentes setores políticos, empresariais e institucionais. A retirada do sigilo de parte dos documentos aumentou a divulgação de informações que anteriormente estavam restritas aos autos.

Esse processo poderá trazer novos esclarecimentos, mas também exige cuidado para que trechos isolados de relatórios e manifestações não sejam utilizados como conclusões antecipadas.

A transparência é importante para que a sociedade conheça o conteúdo das apurações. Ao mesmo tempo, as informações devem ser acompanhadas do contexto necessário e do registro de que os procedimentos ainda estão em andamento.

Próximos passos

A investigação deverá continuar com a análise das movimentações financeiras, dos contratos ligados ao filme e das relações entre os responsáveis pela produção, os administradores dos recursos e Daniel Vorcaro.

Também poderão ser solicitados novos depoimentos, documentos bancários e informações de autoridades estrangeiras, caso sejam considerados necessários.

As futuras decisões dependerão das provas reunidas, das manifestações da PGR e da avaliação do ministro responsável pelo procedimento no Supremo Tribunal Federal.

Até que essas etapas sejam concluídas, não é possível afirmar que Eduardo Bolsonaro ou qualquer outro investigado tenha cometido crime relacionado ao financiamento de “Dark Horse”.

As informações sobre a manifestação da Procuradoria-Geral da República foram divulgadas pelo jornal O Globo e repercutidas por veículos nacionais de imprensa. Os fatos continuam sob investigação, e os citados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.