PF atribui a ex-sócio do Master criação de carteiras repassadas ao BRB
Investigação afirma que banco público adquiriu R$ 12,2 bilhões em títulos sem autenticidade e estima prejuízo de pelo menos R$ 5 bilhões. Augusto Lima nega envolvimento em fraude.
A Polícia Federal atribui ao empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, a criação de carteiras de crédito consideradas fraudulentas e posteriormente repassadas ao Banco de Brasília, o BRB.
Segundo a investigação, o banco público adquiriu R$ 12,2 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário sem autenticidade. O prejuízo estimado ao BRB seria de pelo menos R$ 5 bilhões.
As conclusões constam de documentos produzidos pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga as negociações realizadas entre o Banco Master e o BRB.
Augusto Lima nega participação em qualquer fraude. Sua defesa afirma que as suspeitas são infundadas, que os pagamentos recebidos decorreram de serviços efetivamente prestados e que o empresário deixou o Banco Master em maio de 2024.
Como funcionavam as operações
As Cédulas de Crédito Bancário, conhecidas como CCBs, são títulos que representam dívidas assumidas por pessoas ou empresas junto a instituições financeiras.
Esses papéis podem ser reunidos em carteiras e negociados entre bancos. A instituição que adquire a carteira passa a ter o direito de receber os pagamentos feitos pelos devedores.
Para que a operação seja válida, entretanto, os créditos precisam existir, possuir documentação adequada e corresponder a contratos efetivamente firmados.
A Polícia Federal suspeita que parte das carteiras transferidas ao BRB continha títulos sem lastro ou sem documentação capaz de comprovar sua autenticidade. Com isso, o banco público teria desembolsado bilhões de reais por ativos cujo valor real seria muito inferior ao apresentado.
Participação atribuída a Augusto Lima
Augusto Lima foi sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master e é conhecido por ter criado o Credcesta, modalidade de crédito consignado destinada a servidores públicos.
Ele também controla a empresa Terra Firme e manteve relações comerciais com companhias que participaram das operações investigadas.
Segundo a Polícia Federal, Lima teria atuado na estruturação e na intermediação das carteiras de crédito posteriormente vendidas ao BRB. A investigação aponta ainda pagamentos recebidos por empresas ligadas ao empresário em períodos próximos às liberações de recursos do banco público para o Master.
Parte das operações envolvia créditos consignados que teriam sido originados pela consultoria Tirreno. A PF investiga se os contratos apresentados correspondiam a empréstimos verdadeiros ou se foram utilizados para dar aparência legítima a créditos inexistentes.
A defesa sustenta que Lima não exercia funções no Banco Master durante parte do período investigado e que as relações comerciais mencionadas pela polícia eram regulares.
BRB afirma ter sido vítima
O BRB afirma que foi vítima de atos criminosos praticados durante a administração anterior e pede que a gestão atual não seja confundida com ex-dirigentes investigados.
O banco declarou ter reforçado seus controles internos e contratado uma auditoria forense independente. Segundo a instituição, os resultados dessa apuração foram encaminhados à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal, ao Banco Central, à Comissão de Valores Mobiliários e ao Poder Judiciário.
Uma auditoria interna já havia identificado inconsistências em parte das carteiras adquiridas. O banco também tenta evitar que todos os ativos relacionados ao Master sejam imediatamente reconhecidos como perda antes da conclusão das análises.
Entre julho de 2024 e outubro de 2025, o BRB adquiriu aproximadamente R$ 22,9 bilhões em carteiras de crédito do Master e do Will Bank. Os R$ 12,2 bilhões mencionados pela Polícia Federal correspondem à parcela de CCBs que os investigadores consideram sem autenticidade.
Portanto, os valores não devem ser confundidos. O total das operações examinadas é maior do que a parcela apontada como irregular, e o prejuízo financeiro definitivo ainda depende da avaliação dos ativos e da possibilidade de recuperação dos recursos.
Impacto sobre um banco público
O BRB é controlado pelo Governo do Distrito Federal. Por isso, eventuais perdas atingem uma instituição pública e podem afetar seu patrimônio, sua capacidade de conceder crédito e os interesses de seus acionistas.
O prejuízo estimado em pelo menos R$ 5 bilhões não representa, neste momento, um valor definitivamente reconhecido. Trata-se de uma projeção mencionada no âmbito da investigação.
A apuração deverá determinar quanto o BRB efetivamente perdeu, quais ativos ainda possuem valor e se parte dos recursos poderá ser recuperada dos responsáveis ou por meio de garantias.
Também será necessário esclarecer por que as carteiras foram aprovadas, quais controles internos foram aplicados e se dirigentes ou funcionários ignoraram sinais de inconsistência.
Pedidos da Polícia Federal
A Polícia Federal busca autorização judicial para aprofundar a investigação, incluindo a quebra dos sigilos bancário e fiscal de pessoas e empresas relacionadas às operações.
O objetivo é acompanhar o caminho percorrido pelo dinheiro e verificar se pagamentos recebidos pelos investigados possuem relação com os recursos liberados pelo BRB ao Banco Master.
A existência dos pedidos não significa que os investigados tenham sido condenados. As conclusões apresentadas pela PF ainda poderão ser contestadas pelas defesas e avaliadas pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário.
Próximos passos
As investigações deverão comparar os contratos originais com os títulos vendidos, identificar os supostos tomadores dos empréstimos e verificar se os créditos existiam quando foram negociados.
A auditoria contratada pelo BRB também será importante para calcular as perdas e apontar eventuais falhas nos procedimentos internos do banco.
Augusto Lima e os demais investigados poderão apresentar documentos, perícias e explicações sobre as operações. Caberá às autoridades decidir se existem elementos suficientes para o oferecimento de denúncias.
Até que as apurações sejam concluídas, não é possível tratar as suspeitas como condenações definitivas. Entretanto, o volume de recursos envolvido e a participação de um banco controlado pelo poder público tornam indispensável uma investigação transparente e rigorosa.
As informações sobre as conclusões atribuídas à Polícia Federal foram divulgadas pela Folha de S.Paulo. O BRB afirma colaborar com as autoridades e ter sido vítima das irregularidades investigadas, enquanto a defesa de Augusto Lima nega as acusações.
