Justiça

Dino proíbe produtora de “Dark Horse” de firmar novos contratos públicos

Decisão alcança empresas ligadas à produtora do filme sobre Jair Bolsonaro e foi tomada durante investigação que apura possível desvio de emendas parlamentares

Por Saulo Bezerra · 12 de setembro de 2026 · 11h30
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Documentos de contratação pública sobre uma mesa, com equipamentos de produção cinematográfica isolados por uma barreira vermelha ao fundo.

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, proibiu a Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, de participar de licitações e firmar novos contratos com o Poder Público em qualquer esfera federativa.

A medida foi determinada no âmbito da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal com apoio da Controladoria-Geral da União. A investigação apura a suspeita de que recursos provenientes de emendas parlamentares tenham sido desviados por meio de entidades e empresas contratadas para executar projetos culturais.

“Dark Horse” é uma produção cinematográfica inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A empresária Karina Gama, responsável pela Go Up Entertainment, está entre os investigados e foi alvo de mandado de busca e apreensão.

Além da produtora, a Go7 Assessoria também foi proibida de participar de licitações e contratar com órgãos públicos. Outras entidades vinculadas à empresária tiveram atividades econômicas e financeiras suspensas por determinação judicial.

Emendas estão no centro da investigação

A apuração envolve duas emendas parlamentares, no valor total de R$ 2 milhões, destinadas em 2024 pelo deputado federal Mario Frias ao Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama.

Os pagamentos foram realizados em parcelas ao longo de 2025. A Polícia Federal investiga se parte desses recursos teria sido direcionada a empresas subcontratadas sem comprovação da efetiva prestação dos serviços previstos.

Segundo os investigadores, a empresária teria desempenhado um papel central na administração das entidades responsáveis pelos projetos financiados com recursos públicos e na contratação dos fornecedores.

A operação procura verificar se houve desvio de dinheiro público, fraude em contratos, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro. Essas hipóteses ainda dependem da análise das provas recolhidas e não representam condenação dos investigados.

Movimentações coincidem com período das filmagens

A Polícia Federal identificou movimentações financeiras da Go Up Entertainment que teriam ocorrido no mesmo período das filmagens de “Dark Horse”.

De acordo com informações divulgadas sobre o relatório, a empresa movimentou aproximadamente R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. As gravações do filme teriam sido realizadas em São Paulo entre 20 de outubro e 7 de dezembro daquele ano.

Os investigadores também mencionaram pagamentos relacionados a hotéis, restaurantes e outras produtoras. A coincidência entre as datas das movimentações e o período de gravação levou a Polícia Federal a aprofundar a análise da origem e da destinação dos valores.

A existência de movimentações durante as filmagens, isoladamente, não comprova que recursos públicos tenham sido empregados na produção. A investigação deverá demonstrar se houve ligação entre o dinheiro das emendas, as empresas contratadas e os gastos do filme.

Operação cumpriu mandados em quatro unidades da Federação

A Operação Make Up cumpriu mandados em endereços localizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estavam Karina Gama e Mario Frias, que participou do projeto como produtor executivo e roteirista.

Celulares, computadores e documentos foram recolhidos para análise. Na residência de Frias, agentes encontraram armas registradas em nome do parlamentar, mas guardadas em endereço diferente daquele informado às autoridades. Esse fato deverá ser esclarecido separadamente.

Dino também determinou medidas destinadas a evitar que investigados deixem o país sem comunicação à Justiça e autorizou o recolhimento de passaportes.

Defesas contestam as suspeitas

Karina Gama afirmou anteriormente que os recursos recebidos foram aplicados corretamente. A empresária também declarou ter sofrido pressão para realizar um acordo de colaboração premiada.

Flávio Bolsonaro, que não foi alvo dessa operação, classificou a ação como interferência política de Flávio Dino nas eleições. O senador declarou que o filme não teria recebido dinheiro público e defendeu que o financiamento da produção seja examinado integralmente.

Em outro procedimento, sob relatoria do ministro André Mendonça, é investigada a possível participação de Flávio Bolsonaro na negociação de recursos destinados ao filme com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.

Próximos passos

A Polícia Federal deverá analisar os equipamentos e documentos apreendidos e comparar as movimentações bancárias com os contratos, notas fiscais e serviços apresentados pelas entidades investigadas.

As restrições impostas às empresas possuem caráter cautelar. Isso significa que foram determinadas para evitar novos riscos durante a investigação e não equivalem a uma decisão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.

As informações sobre a operação e as medidas determinadas por Flávio Dino foram divulgadas pela Agência Brasil, pela Folha de S.Paulo e pelo jornalista Cláudio Dantas. A investigação permanece em andamento, e todos os citados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.