Corte esperado da Selic pode reduzir despesa da dívida pública em R$ 1,6 bilhão por mês
Mais da metade da Dívida Pública Federal está vinculada à taxa básica de juros. Copom inicia reunião nesta terça-feira, e mercado espera redução da Selic de 14% para 13,75% ao ano.
A redução da taxa Selic esperada para esta semana poderá representar um alívio mensal estimado em R$ 1,6 bilhão nas despesas relacionadas à dívida pública brasileira.
O Comitê de Política Monetária do Banco Central iniciou nesta terça-feira, 15 de setembro, a reunião que definirá o novo patamar da taxa básica de juros. A decisão será anunciada na quarta-feira.
A expectativa predominante do mercado é de um corte de 0,25 ponto percentual, fazendo a Selic recuar dos atuais 14% para 13,75% ao ano.
O valor de R$ 1,6 bilhão é uma estimativa calculada a partir do efeito que uma redução dos juros poderá produzir sobre os títulos públicos vinculados à Selic. A economia efetiva dependerá da decisão do Copom e da composição da dívida ao longo do tempo.
MAIS DA METADE DA DÍVIDA ESTÁ VINCULADA À SELIC
Em julho, as Letras Financeiras do Tesouro, títulos cuja remuneração acompanha a taxa Selic, representavam 51,07% da Dívida Pública Federal.
O volume desses papéis chegou a aproximadamente R$ 4,74 trilhões dentro de uma dívida total de R$ 9,29 trilhões. Foi a maior participação dos títulos vinculados à taxa básica de juros desde agosto de 2003.
Quando a Selic aumenta, o governo precisa pagar uma remuneração maior aos investidores que possuem esses títulos. Quando a taxa diminui, o custo tende a cair gradualmente.
Segundo cálculo do economista-chefe da Terra Investimentos, João Maurício Rosal, um novo corte de 0,25 ponto poderá reduzir em cerca de R$ 1,6 bilhão por mês o crescimento do estoque da dívida governamental.
EFEITO NÃO É IMEDIATO SOBRE TODA A DÍVIDA
A redução da Selic não significa que o governo receberá imediatamente R$ 1,6 bilhão em dinheiro disponível para outras despesas.
O efeito ocorre no custo de remuneração dos títulos e se acumula conforme os juros permanecem mais baixos. O resultado também depende das novas emissões, dos vencimentos dos papéis, da inflação e da estratégia adotada pelo Tesouro Nacional.
Nas quatro reuniões anteriores, o Copom reduziu a Selic em um ponto percentual no total. Economistas avaliam que essa sequência já contribuiu para diminuir o ritmo de crescimento do estoque da dívida.
Apesar disso, o endividamento público permanece elevado e continua sujeito às condições fiscais e econômicas do país.
TÍTULOS VINCULADOS À SELIC GANHAM ESPAÇO
Em julho, os títulos associados à Selic aumentaram sua participação na dívida. As novas emissões desses papéis somaram R$ 124,11 bilhões e responderam por 62,6% das ofertas realizadas no período.
Os títulos prefixados, que oferecem uma remuneração definida no momento da compra, perderam espaço.
As Letras do Tesouro Nacional recuaram de R$ 1,28 trilhão para R$ 1,13 trilhão. Já as Notas do Tesouro Nacional da série F diminuíram de R$ 663,8 bilhões para R$ 647,1 bilhões.
Com essas alterações, os títulos prefixados passaram a representar 19,2% da dívida total.
PLANO DO TESOURO FOI REVISADO
O Tesouro Nacional revisou em agosto o Plano Anual de Financiamento de 2026 e ampliou a faixa prevista para a participação dos títulos vinculados à Selic.
A projeção anterior estabelecia que esses papéis deveriam representar entre 46% e 50% da dívida. O novo intervalo passou para uma faixa entre 49% e 53%.
A maior participação desses títulos oferece flexibilidade em períodos de incerteza, mas também aumenta a sensibilidade da dívida às decisões tomadas pelo Banco Central.
Enquanto a Selic permanece elevada, o custo para o governo também continua alto. Por outro lado, uma sequência de cortes pode reduzir gradualmente essa despesa.
POR QUE A SELIC AINDA ESTÁ ALTA
A Selic é utilizada pelo Banco Central como instrumento para controlar a inflação. Juros elevados encarecem o crédito e desestimulam parte do consumo e dos investimentos, reduzindo a pressão sobre os preços.
Entretanto, a mesma política também dificulta o crescimento econômico, aumenta o custo dos financiamentos e eleva as despesas do governo com a dívida pública.
O desafio do Banco Central é reduzir os juros sem provocar nova aceleração da inflação ou desorganizar as expectativas do mercado.
Analistas ainda apontam riscos relacionados aos preços dos alimentos e dos combustíveis, à situação fiscal, ao cenário eleitoral e às condições da economia internacional.
PRÓXIMOS PASSOS
A decisão do Copom será divulgada nesta quarta-feira, 16 de setembro. Além do novo percentual da Selic, o mercado acompanhará o comunicado do Banco Central em busca de indicações sobre as próximas reuniões.
Caso seja confirmado o corte para 13,75%, será a quinta redução consecutiva de 0,25 ponto percentual.
Será necessário observar se o ciclo de queda continuará ou se o Copom fará uma pausa para avaliar o comportamento da inflação, da atividade econômica e das contas públicas.
A eventual economia com a dívida é positiva, mas não substitui a necessidade de controle das despesas, planejamento fiscal e administração responsável do endividamento público.
