Economia

Kayath tenta conciliar ajuste fiscal e proteção social em possível governo Flávio

Ex-executivo do Credit Suisse recebe apoio de Eduardo Bolsonaro para uma eventual indicação à Fazenda. Suas propostas apresentam pontos promissores, mas ainda precisam de números, prioridades e medidas concretas.

Por Saulo Bezerra · 13 de setembro de 2026 · 11h50
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Mapa do Brasil cercado por gráficos econômicos, moradias, escola, pequena empresa, fábrica, ferrovia e ponte, representando diferentes áreas de um programa econômico.

O nome do investidor e ex-banqueiro Marcelo Kayath ganhou força nas discussões sobre quem poderia comandar o Ministério da Fazenda em um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro declarou que Kayath seria uma excelente escolha para o cargo e afirmou existir convergência entre suas ideias. A preferência também havia sido noticiada pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

Apesar do apoio, nenhuma decisão foi tomada. Outros profissionais continuam sendo considerados, entre eles o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, o executivo Alexandre Bettamio e Daniella Marques, que participa da formulação econômica da campanha de Flávio.

Portanto, Kayath deve ser tratado como um nome em avaliação, e não como futuro ministro já escolhido.

Quem é Marcelo Kayath

Marcelo Kayath trabalhou durante aproximadamente duas décadas no Credit Suisse e ocupou funções de direção na América Latina. Atualmente, é fundador e sócio da QMS Capital.

Sua trajetória está ligada ao mercado financeiro, à estruturação de investimentos e à abertura de capital de empresas. Eduardo Bolsonaro também destaca seus contatos com instituições financeiras e investidores dos Estados Unidos como uma qualidade importante para atrair recursos estrangeiros ao Brasil.

Kayath aproximou-se de Flávio Bolsonaro durante encontros promovidos com empresários e representantes do mercado. Eduardo afirma ter se reunido com ele em quatro ocasiões e ter encontrado convergência em diferentes assuntos.

Um dado politicamente relevante é que Kayath apoiou Lula na eleição de 2022. Isso não impede sua participação em uma administração de direita, mas levanta uma pergunta legítima: sua aproximação com Flávio representa uma mudança de convicções, uma posição pragmática ou apenas colaboração técnica?

A resposta será importante para avaliar sua identificação com o projeto político que pretende representar.

Ajuste fiscal sem corte indiscriminado

Kayath defende que o próximo governo enfrente rapidamente o desequilíbrio das contas públicas. Para ele, a recuperação da credibilidade fiscal ajudaria a reduzir o custo do dinheiro e permitiria uma retomada mais consistente dos investimentos.

Ao mesmo tempo, afirma que os cortes não podem ser cegos nem atingir indiscriminadamente as pessoas que mais dependem dos serviços e programas públicos. Eventuais ajustes deveriam ser cirúrgicos, preservando a proteção social e buscando eliminar desperdícios, privilégios e despesas ineficientes.

Essa combinação procura evitar dois extremos: ignorar o desequilíbrio fiscal ou tentar resolvê-lo transferindo todo o custo para os mais pobres e para a classe média.

O princípio é razoável. O problema está em transformar essa intenção em medidas concretas. Praticamente todo candidato promete eliminar desperdícios, mas poucos explicam quais despesas serão reduzidas, quanto será economizado e quais grupos perderão benefícios.

Sem essas respostas, a proposta permanece correta no discurso, porém incompleta para orientar um programa de governo.

Programas sociais e porta de saída

Kayath reconhece que o Brasil é profundamente desigual e que o mercado, sozinho, não resolverá essa situação no curto prazo.

Ele defende a manutenção de uma rede de proteção para famílias vulneráveis, mas considera necessário avaliar a eficiência dos programas sociais e os resultados que entregam à sociedade.

Sua concepção procura combinar a transferência de renda com políticas capazes de criar uma porta de saída: educação, qualificação profissional, creches, saúde, emprego, crédito e oportunidades de crescimento.

Esse é um ponto importante. A proteção social atende a necessidade imediata, enquanto o emprego e o aumento da produtividade oferecem condições para que a família conquiste autonomia.

Ainda assim, será necessário definir quais programas seriam preservados, quais passariam por revisão e quais critérios seriam utilizados. Uma avaliação mal conduzida poderá corrigir fraudes e desperdícios, mas também poderá excluir pessoas que realmente precisam de auxílio.

Pequenas empresas e sistema tributário

Entre as propostas mais concretas está a atualização dos limites do Simples Nacional e do Microempreendedor Individual.

Os valores atuais perderam parte de sua capacidade em razão da inflação. Em determinadas situações, uma empresa que cresce ultrapassa os limites do regime e passa a enfrentar aumento expressivo de impostos e burocracia.

Kayath entende que o sistema não deve punir o empreendedor que amplia sua atividade. Ele também defende preservar o tratamento concedido à cesta básica, à Zona Franca de Manaus e ao crédito destinado ao produtor rural.

A atenção às pequenas empresas é relevante porque elas representam parcela significativa dos empregos gerados no país. Entretanto, qualquer revisão tributária precisará demonstrar seu impacto sobre a arrecadação e indicar como o governo compensaria uma eventual perda de receita.

Combate às renúncias e ao desperdício

Kayath aponta as renúncias tributárias como uma possível fonte de economia. Esses benefícios alcançam centenas de bilhões de reais e nem sempre possuem resultados comprovados para a sociedade.

Reavaliar incentivos fiscais pode ser necessário, sobretudo quando determinados setores recebem vantagens sem entregar investimentos, empregos ou redução de preços proporcional ao benefício concedido.

A dificuldade será separar os privilégios injustificados das políticas que sustentam empregos, desenvolvimento regional ou setores estratégicos.

Ele também defende priorizar a conclusão de obras públicas paralisadas antes da apresentação de novos projetos. A proposta possui lógica administrativa: terminar uma escola, hospital ou infraestrutura parcialmente construída poderá ser mais eficiente do que iniciar outra obra que corre o risco de também ficar incompleta.

Crítica ao custo do sistema bancário

Outro ponto que chama atenção é a preocupação de Kayath com o endividamento das famílias e das pequenas empresas.

Ele considera que a inadimplência não deve ser tratada apenas como um problema de crédito. Juros elevados, redução da renda disponível e dificuldade de renegociação produzem consequências sociais e econômicas.

Sua proposta inclui maior concorrência entre os bancos, portabilidade efetiva das dívidas e renegociações que não apenas empurrem o problema para o futuro.

Esse talvez seja um dos pontos politicamente mais difíceis. Ampliar a concorrência bancária e reduzir o custo do crédito exigirá enfrentar interesses poderosos, aperfeiçoar a regulamentação e garantir que a redução dos juros chegue efetivamente aos consumidores.

A intenção é positiva, mas ainda faltam mecanismos capazes de mostrar como essa transformação seria realizada.

Estatais e privatizações

Kayath rejeita a ideia de privatizar automaticamente Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras. Ele reconhece que essas empresas são lucrativas e exercem funções estratégicas.

Ao mesmo tempo, defende regras de governança, metas públicas de desempenho e proteção contra o uso político ou partidário das estatais.

Sua posição procura evitar tanto a venda indiscriminada de empresas importantes quanto sua utilização para acomodar interesses políticos, patrocínios sem justificativa ou decisões prejudiciais ao patrimônio público.

Também considera que estruturas estatais sem função atual devem ter sua continuidade reavaliada.

Essa abordagem parece mais pragmática do que ideológica. Cada empresa deveria ser examinada considerando sua utilidade, eficiência, importância estratégica e custo para o contribuinte.

Infraestrutura, produtividade e segurança jurídica

Kayath afirma que o Brasil precisa elevar os investimentos em infraestrutura, tecnologia e educação para aumentar sua produtividade.

O governo não possui recursos suficientes para executar sozinho todos os projetos necessários. Por isso, ele defende mobilizar capital privado para ferrovias, rodovias, saneamento, energia, logística, habitação e tecnologia.

Nesse modelo, o Estado atuaria na formulação de regras, na redução dos riscos e na preparação de projetos capazes de atrair investidores.

A proposta depende de segurança jurídica. Nenhum empresário planeja investimentos para dez ou vinte anos se contratos e normas puderem ser alterados de forma inesperada.

Nesse ponto, a agenda econômica encontra a agenda institucional. Previsibilidade jurídica, respeito aos contratos e estabilidade das regras são condições essenciais para a recuperação do investimento.

Os pontos ainda sem resposta

O discurso de Kayath possui equilíbrio e apresenta preocupações que nem sempre aparecem juntas nas propostas econômicas: responsabilidade fiscal, proteção social, pequenas empresas, infraestrutura e redução do endividamento.

Entretanto, permanecem perguntas importantes:

De onde sairia a economia necessária para equilibrar as contas públicas?

Quais despesas obrigatórias seriam alteradas?

Quais renúncias tributárias seriam encerradas?

Qual seria a meta fiscal para o primeiro ano?

Como reduzir o custo do crédito sem interferências artificiais?

Como preservar programas sociais e, simultaneamente, controlar o crescimento das despesas?

Qual seria sua posição sobre autonomia do Banco Central, política de juros e reforma administrativa?

Essas respostas permitirão saber se existe um programa consistente por trás das declarações ou apenas um conjunto de princípios bem apresentados.

Análise do Política em Foco

A possível indicação de Marcelo Kayath representa uma tentativa de aproximar a campanha de Flávio Bolsonaro do mercado financeiro sem assumir integralmente uma agenda de cortes sociais e privatizações.

Sua experiência poderá contribuir para atrair investimentos e dialogar com o setor produtivo. A defesa das pequenas empresas, da infraestrutura, da concorrência bancária e de uma proteção social mais eficiente merece atenção.

Por outro lado, experiência no mercado não garante capacidade para administrar conflitos políticos, negociar com o Congresso e enfrentar grupos beneficiados por despesas públicas, renúncias tributárias ou concentração econômica.

O ministro da Fazenda não atua somente como técnico. Ele precisa transformar objetivos em medidas, construir apoio político e explicar à população quem será afetado por cada decisão.

Minha opinião

Considero positiva a tentativa de conciliar responsabilidade fiscal com proteção às famílias mais vulneráveis. O Brasil não pode continuar gastando sem planejamento, mas também não deve buscar equilíbrio retirando sempre daqueles que possuem menos condições de se defender.

Kayath apresenta ideias razoáveis e demonstra compreender que a economia não se resume aos interesses do mercado financeiro. Sua preocupação com a pequena empresa, o endividamento das famílias, a infraestrutura e a preservação de estatais estratégicas diferencia seu discurso de uma visão liberal baseada apenas em cortes e privatizações.

Contudo, ainda é cedo para oferecer um apoio definitivo. As propostas precisam sair do campo das boas intenções e chegar aos números, prazos e decisões concretas.

Sua passagem do apoio a Lula em 2022 para a aproximação com Flávio também merece explicação transparente. Mudanças de posição são legítimas, mas o eleitor tem o direito de compreender quais princípios orientam essa mudança.

Neste momento, Kayath parece ser um nome interessante e tecnicamente preparado para participar do debate econômico. Mas a responsabilidade de comandar a Fazenda exige mais do que um bom diagnóstico. Exige coragem para enfrentar interesses, clareza para apresentar escolhas difíceis e compromisso permanente com o cidadão que paga impostos e depende de serviços públicos.

Antes de qualquer conclusão, será necessário conhecer o programa completo e verificar se suas propostas realmente estarão incorporadas ao projeto de governo de Flávio Bolsonaro.